A importância de saber dizer não.
Impor limites é, sem dúvida, um dos maiores desafios dos pais na criação dos filhos e, para isso, é preciso saber dizer “não”, quando necessário.
“Uma coisa é dizer para a outra mãe o que é considerado melhor para os filhos, e outra é a convivência real com o próprio filho”. “Para dizer ‘não’, tem que deixar de lado todas as culpas. Geralmente, as mães acham que, ao fazerem isto, estão sendo rígidas demais, ou os filhos deixarão de amá-las, mas não é assim que funciona”.
Crianças, observam o tempo todo o comportamento dos pais. “É fundamental estabelecer um diálogo continuo com os filhos, utilizando termos adequados para cada fase da vida, e fazê-los entender o que pode ou não ser feito”.
POSICIONAMENTO FIRME
Para o fotografo carioca Nicolau El-moor, pai de Arthur, 7 anos, é importante estabelecer limites nos pequenos desde a mais tenra infância. “Essa situação ficou muito mais complicada quando o Arthur começou a ir a escola e passou a comparar a sua realidade com a de outras crianças, sobre o que se pode ou não fazer”, conta. “é quase como uma queda de braço; temos sempre que negociar. Mas, quando digo ‘não’, sempre converso com ele e explico o porquê”. Nesse momento, o posicionamento firme dos pais é essencial. “Vivemos em um mundo complicado, onde muitos fazem o que bem entendem e observo que existe muita falta de respeito entre as pessoas”, analisa. Acredito que isso se deve também ao fato de muitos crescerem sem limites e valores bem definidos desde a infância. Manter uma atenção constante contribui para preparar bem um futuro cidadão, completa.
EQUILÍBRIO
A empresaria mineira Renata Foresti é mãe das gêmeas Vittoria e Valentina, de 9 anos. Para ela, saber dizer “não” às filhas implica em estabelecer limites, ensinar a respeitar os outros e viver em uma vida adulta mais equilibrada. “Em algumas situações, como ir a escola, escovar os dentes e realizar o dever de casa, não há espaço para negociar, é fazer logo”. “Em outras circunstancias, é saudável que haja uma tentativa de negociação e, às vezes, até de deixar que saiam vencedoras no acordo. A ideia é incentivá-las a, desde cedo, aprender a batalhar pelo que querem, e não ficar a ideia de que terão tudo de mão beijada”, destaca. De acordo com ela, a dificuldade está em dizer não quando há recursos para o sim. “O ‘não’ é dito em situações onde é importante deixar claro o que é necessário e o que é capricho ou consumismo”. “Fica muito fácil dizer isso quando o assunto em questão está ligado aos nossos valores e comportamentos que julgamos não ser adequados. Neste caso, explica-se o porquê do ‘não’ somente na primeira vez”. E acrescenta: Acredito que a criança cresce mais consciente do seu papel na família, na sociedade e nos relacionamentos quando aprende a entender o ‘não’. Ela enfrenta melhor as dificuldades”, finaliza.
RESPEITO
A psicopedagoga Maria Tereza Carneiro Pita cita o respeito como um dos principais valores trabalhados por meio de uma negativa. “Por exemplo, para pegar coisa do amiguinho, é necessário aprender a pedir antes, pois sem pedir, não pode pegar. Portanto, o ‘não’ se insere no âmbito de todo o comportamento humano, inclusive o próprio respeito pelo outro”, explica. Segundo ela muitos pais ficam preocupados em frustrar os filhos, mas o sentimento de frustração faz parte do desenvolvimento humano. “Quem nunca passa por isso, se torna caprichoso, egoísta e egocêntrico, e só consegue ver e perceber a si próprio”, avalia. “Já a pessoa que, eventualmente, enfrenta situações em que precisa administrar a relação com o outro, é capaz de suportar os reveses da vida”. A paciência e a ansiedade também são melhor desenvolvidos. “Hoje em dia, um dos maiores surtos da sociedade é a ansiedade. Devido à correria do dia a dia, as pessoas têm muita dificuldade de saber esperar”, constata. “A ansiedade é produtiva até certo ponto, onde se consegue controlá-la e administrar a situação que está acontecendo”, afirma Maria Tereza. Para os pais saberem se estão sendo permissivos ou rígidos demais, a psicopedagoga recomenda se colocar no lugar de alguém externo à relação e, assim, avaliar se aquele comportamento do filho visto sob outro aspecto seria adequado ou aceitável.”A partir do momento que os pais se projetam no lugar de outra pessoa que esta sofrendo a ação do filho ou que está vendo o próprio filho como o de outra família, eles conseguem avaliar se estão sendo muito rígidos e autoritários ou se estão dentro de um padrão de educação da criança”, conclui.
Fonte: Jornal da Comunidade VIP, Brasília, 10 a 16 de setembro de 2001.





