O PAPEL DO PAI NA NOVA CONFIGURAÇÃO FAMILIAR

O modelo familiar centrado na figura do pai mudou com as demandas sociais das novas gerações, com a criação das classes sociais mais marcadas, com a migração para a cidade das massas populares e os novos modelos de economia.

Até meados do século passado, a configuração da família brasileira era regida em preceitos tradicionais construídos em um tempo em que as mudanças ocorriam de forma lenta. Isso quer dizer que a estrutura hierárquica de uma família daquela época era construída tendo como modelo todas as gerações anteriores. "A pátria é a família amplificada. E a família, divinamente constituída, tem por elementos orgânicos a honra, a disciplina, a fidelidade, a benquerença, o sacrifício. É uma harmonia instintiva de vontades, permuta de abnegações, um tecido vivente de almas entrelaçadas. (...) Multiplicai a família, e tereis a pátria". (Ruy Barbosa)
Em detalhe, Ruy Barbosa explica que o pai ocupava o lugar central das relações. Essa entidade "pai" representava, em toda estrutura, o ponto primeiro na condução das relações hierárquicas que compunham cada família. Era dele o poder de decisão no século 19, em todos que o antecederam e até em meados do século 20. A rotina de uma família era movida pela rotina de um pai. O horário do almoço era o momento de sua chegada do trabalho, as saídas em família pertenciam a sua vontade, a cabeceira da mesa era dele. De lá, ele não dizia, ele ordenava, ou, apenas com um olhar, dava sua ordem com satisfação ou não. De acordo com os trabalhos da pesquisadora Elizabeth Cayres em "Família Brasileira no contexto histórico e cultural", o poder patriarcal era identificado na figura do pai. Era no "chefe da família" que "concentrava as funções militantes, empresariais e afetivas. Com uma distribuição extremamente rígida e hierárquica de papéis" (...).
Todo esse modelo identificado pela autora, porém, modificou-se com as demandas sociais das novas gerações, com a criação das classes sociais mais marcadas, com a migração para a cidade das massas populares e os novos modelos de economia. Como consequência, há o distanciamento da mulher de sua casa, com a entrada no mercado de trabalho. Esse novo modelo de família, que batia à porta, já na segunda metade do século passado, foi responsável por essa nova geografia hierárquica. O pai, como provedor, foi perdendo sua palavra final. Suas decisões familiares e sua rotina foram reacomodadas em um poder partilhado.
É nessa mesma época que o valor dado aos filhos ganha uma nova configuração. O pai deixa de ser o ponto central da família e nessa nova arquitetura, os filhos ganham o lugar central nas mesas. Tudo passa ser em função dos filhos: os horários, a rotina, o lazer, as distâncias, o afeto. É para eles a existência de uma família; é nessa nova acomodação social que surge um novo pai: o pai do argumento. O novo pai ainda toma decisões, mas não só divididas com a família, mas vitimadas pelas palavrinhas mais repetidas pelas crianças do século 21: "Por quê?..." O modelo do pai que sinalizava com o olhar suas decisões, não existe mais e não serve como referência. Ele perdeu o espaço de uma existência autoritária, tal como perdeu o direito ao controle remoto. Se antes o pai representava a família e essa representação era modelo também de contraposição com a figura da esposa, hoje o que se torna modelo é seu espectro masculino, sua representação de diferença e contraposição ao feminino, e não mais com a mulher. É nesse ponto que reside a figura paterna neste século. É essa representação que hoje se torna preciosa para os filhos, como uma herança imaterial que se refletirá na maneira como eles lidarão com a figura de um homem e de uma mulher mais tarde; perpetuando a imagem, a função e a importância desse novo ser. Essa perpetuação será a nova tradição das próximas gerações e sua dinâmica se tornará um dos mais importantes aprendizados na formação adulta de seus filhos.

Referências e dicas de leitura

ALENCAR, Mônica M. T. de. Transformações econômicas e sociais no Brasil dos anos 1990 e seu impacto no âmbito da família. In: SALES, Mione A; MATOS, Maurílio C. de ; LEAL, Maria C. (orgs.). Política social, família e juventude: uma questão de direitos. São Paulo: Cortez, 2004.
ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: LTC, 1981.
AZEVEDO, Maria A. ; GUERRA, Viviane N. de A. (orgs.). Infância e violência: fronteiras do conhecimento. – 3. ed. – São Paulo: Cortez, 2000.
BARROS, Nívia V. Violência intrafamiliar contra criança e adolescente: trajetória histórica, políticas sociais, práticas e proteção social. Tese de doutorado. Rio de Janeiro: PUC – Rio, Departamento de Psicologia, 2005.
BRUSCHINI, Cristina. Teoria crítica da família. In: AZEVEDO, Maria A. ; GUERRA, Viviane N. de A. (orgs.). Infância e violência doméstica: fronteiras do conhecimento. – 3. ed. – São Paulo: Cortez, 2000. BUSSINGER, Vanda V. Fundamentos dos direitos humanos. In: Revista Serviço Social & Sociedade, nº 53. São Paulo: Cortez, 1997.
CARVALHO, Maria do C. B. de. A priorização da família na agenda da política social. In: KALOUSTIAN, Silvio M. (org.). Família brasileira, a base de tudo. – 7. ed. – São Paulo: Cortez; Brasília, DF: UNICEF, 2005. p. 93-108.
CARVALHO, Maria do C. B. de. O lugar da família na política social. In: CARVALHO, Maria do C. B. de (org.). A Família contemporânea em debate. – 7. ed. – São Paulo: EDUC /Cortez, 2003. p.15-22. Tema Transversal: Ética - Autor: EducarBrasil